A DOR DO ARROIO CASTELHANO

A DOR DO ARROIO CASTELHANO

(*) Adm. Volnei Alves Corrêa

Na última quinta feira tive mais uma oportunidade de, juntamente com técnicos da Companhia Riograndense de Saneamento (CORSAN), fazer uma visita técnica pelas margens do Arroio Castelhano. O dia estava lindo e a caminhada de aproximadamente quatro quilômetros foi realizada em mais ou menos de duas horas.

Desta vez não fui ver suas nascentes, mas a situação de suas margens e seu leito na região próxima à área urbana de Venâncio Aires. Iniciamos nossa aventura , logo após a Vila Dietrich, há uns seis ou sete quilômetros do ponto onde a CORSAN tem sua estação de captação das águas do Arroio.

A primeira imagem com que nos deparamos foi a da figura abaixo.

Uma ponte inconclusa, servindo como barreira de galhos e outros detritos, propiciando mais assoreamento, pois nas enchentes está ponte só está servindo para, pelo represamento das águas, aumentar o seu volume e ocasionar o desmoronamento das margens.

Esta ponte dentro de uma propriedade particular parece mais uma daquelas obras que vai ¨do nada a lugar nenhum¨. Sua altura demonstra que ela foi feita para ser interditada toda a vez que o Castelhano tivesse um grande aumento de água em sua evasão.

No percurso muitos outros problemas foram identificados. Inicialmente pode-se constatar que a retificação feita em meados dos 80 para que a cidade não sofresse com as enchentes, não atingiu seu objetivo. Na época os responsáveis achavam que eliminando as curvas normais do arroio, seu traçado retilíneo daria maior vazão às águas. Além de as enchentes continuarem, o Arroio, caprichosamente, está procurando voltar a sua forma original. Parece que os responsáveis pelas obras de retificação esqueceram um adágio que os antigos muito usavam. ¨ O homem põe e a Natureza dispõe. ¨

A falta de proteção ao leito do Arroio, ocasionada pela eliminação de grande parte da   mata ciliar, aliada a tendência do arroio voltar ao seu formato original, estão ocasionando grandes áreas de assoreamento como se pode ver na figura a seguir.

Até aqui apresentei resultados da intervenção dos homens a partir de obras, muitas vezes mal planejadas, que não resolvem o problema existente e acabam gerando outros de maior repercussão.

Vou agora apresentar verdadeiros crimes ambientais cometidos por pessoas que usufruem deste Arroio, mas parece não terem a menor consciência do mal, que suas ações, estão ocasionando ao ambiente como um todo.

Quanto tempo vocês imaginam para que todo este lixo aí colocado esteja flutuando nas águas do Arroio? Estes resíduos já estão poluindo as margens do Arroio e na primeira enchente, que não precisa ser muito grande, estarão flutuando e contaminando as águas do Arroio Castelhano.

Vejam estes resíduos estão colocados nas margens do Arroio de uma propriedade privada. Podem dizer que falta fiscalização, mas eu garanto que o que está ocorrendo é uma falta de consciência das pessoas que assim agem.

A legislação é muito clara sobre a responsabilidade de quem gera qualquer tipo de resíduo. A Lei que estabelece a Política Nacional de Resíduos Sólidos determina em seu artigo 28 que ¨ O gerador de resíduos sólidos domiciliares tem cessada sua responsabilidade pelos resíduos com a disponibilização adequada para a coleta ou, nos casos abrangidos pelo art. 33, com a devolução. ¨ Em síntese somos responsáveis pelo resíduos que geramos até seu encaminhamento para o destino final, que pode ser por reuso, reciclagem ou disposição em local adequado.

A figura a seguir nos dá uma ideia, de outra forma de descumprimento da Política Nacional de Resíduos Sólidos. Esta embalagem foi encontrada a poucos metros da margem do Arroio

O Artigo. 33 do Plano Nacional de Resíduos Sólidos estabelece que ¨  são obrigados a estruturar e implementar sistemas de logística reversa, mediante retorno dos produtos após o uso pelo consumidor, de forma independente do serviço público de limpeza urbana e de manejo dos resíduos sólidos, os fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes de:  agrotóxicos, seus resíduos e embalagens, assim como outros produtos cuja embalagem, após o uso, constitua resíduo perigoso, observadas as regras de gerenciamento de resíduos perigosos previstas em lei ou regulamento, em normas estabelecidas pelos órgãos do Sisnama, do Sistema Nacional de Vigilância Sanoitária e do Suasa, ou em normas técnicas.¨

Será que a pessoa que sugeriu a utilização do veneno que está embalagem continha, ou aquela que o vendeu não deram estas informações contidas na Lei ao consumidor? Quem será o culpado? Quem será responsabilizado?

Aqui mais um exemplo de poluição das águas. As bolhas que aparecem nesta vala são resultados de detergentes lançados, nos sistemas de drenagem de águas pluviais urbanas. Estes sistemas são projetados para receber o escoamento superficial das águas de chuva que caem nas áreas urbanas, mas acabam sendo receptores de águas usadas, também chamadas de cinzas, que são lançadas pela população urbana. Estou falando de águas das pias, dos chuveiros, das máquinas de lavar roupa.

Não acredito em mudança de comportamento apenas pela punição. Como professor sou daqueles que acreditam que só uma boa educação pode mudar os hábitos, os costumes e as atitudes, de pessoas que apesar de, dependerem do ambiente em que vivem, esquecem de retribuir com carinho e atenção tudo o que tem recebido da Terra, nossa grande Mãe.

Podem estar perguntando porque denominei este texto como a ¨Dor do Arroio Castelhano. ¨ Não sei bem porque, mas fazendo está caminhada por suas margens, senti muita dor. Não uma dor física, mas algo que veio de dentro, como se eu estivesse também sendo judiado, agredido, maltratado. Senti seu esforço em continuar sua trajetória, apesar dos obstáculos colocados pelo homem, do assoreamento de suas margens, do lixo jogado em suas águas, das tentativas de retificar seu leito, dos descaso com que o tratam.

Ainda não descobri porque o denominaram de Castelhano, mas minha origem uruguaia talvez seja o motivo de minha aproximação. Não tive a oportunidade de nadar em suas águas, mas já bebi de sua água pura das nascentes e, talvez esta ação esteja me dando forças para continuar lutando pela sua preservação.

 (*) Bacharel em Economia pela Universidade de Cruz Alta, RS; Bacharel em Administração Pública e de Empresas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul; Mestrado em Administração pela Universidade de Syracuse, New York, USA; Mestrado em Auditoria e Gestão Ambiental pela Universidad de Leon, Madrid, Espanha; Professor Universitário; Presidente do Instituto Gaúcho de Sustentabilidade, Consultor Organizacional. Ambientalista

Venâncio Aires, 11/08/2017

 

 

 

 

 

A DOR DO ARROIO CASTELHANO

(*) Adm. Volnei Alves Corrêa

Na última quinta feira tive mais uma oportunidade de, juntamente com técnicos da Companhia Riograndense de Saneamento (CORSAN), fazer uma visita técnica pelas margens do Arroio Castelhano. O dia estava lindo e a caminhada de aproximadamente quatro quilômetros foi realizada em mais ou menos de duas horas.

Desta vez não fui ver suas nascentes, mas a situação de suas margens e seu leito na região próxima à área urbana de Venâncio Aires. Iniciamos nossa aventura , logo após a Vila Dietrich, há uns seis ou sete quilômetros do ponto onde a CORSAN tem sua estação de captação das águas do Arroio.

A primeira imagem com que nos deparamos foi a da figura abaixo.

Uma ponte inconclusa, servindo como barreira de galhos e outros detritos, propiciando mais assoreamento, pois nas enchentes está ponte só está servindo para, pelo represamento das águas, aumentar o seu volume e ocasionar o desmoronamento das margens.

Esta ponte dentro de uma propriedade particular parece mais uma daquelas obras que vai ¨do nada a lugar nenhum¨. Sua altura demonstra que ela foi feita para ser interditada toda a vez que o Castelhano tivesse um grande aumento de água em sua evasão.

No percurso muitos outros problemas foram identificados. Inicialmente pode-se constatar que a retificação feita em meados dos 80 para que a cidade não sofresse com as enchentes, não atingiu seu objetivo. Na época os responsáveis achavam que eliminando as curvas normais do arroio, seu traçado retilíneo daria maior vazão às águas. Além de as enchentes continuarem, o Arroio, caprichosamente, está procurando voltar a sua forma original. Parece que os responsáveis pelas obras de retificação esqueceram um adágio que os antigos muito usavam. ¨ O homem põe e a Natureza dispõe. ¨

A falta de proteção ao leito do Arroio, ocasionada pela eliminação de grande parte da   mata ciliar, aliada a tendência do arroio voltar ao seu formato original, estão ocasionando grandes áreas de assoreamento como se pode ver na figura a seguir.

 

Até aqui apresentei resultados da intervenção dos homens a partir de obras, muitas vezes mal planejadas, que não resolvem o problema existente e acabam gerando outros de maior repercussão.

Vou agora apresentar verdadeiros crimes ambientais cometidos por pessoas que usufruem deste Arroio, mas parece não terem a menor consciência do mal, que suas ações, estão ocasionando ao ambiente como um todo.

Quanto tempo vocês imaginam para que todo este lixo aí colocado esteja flutuando nas águas do Arroio? Estes resíduos já estão poluindo as margens do Arroio e na primeira enchente, que não precisa ser muito grande, estarão flutuando e contaminando as águas do Arroio Castelhano.

Vejam estes resíduos estão colocados nas margens do Arroio de uma propriedade privada. Podem dizer que falta fiscalização, mas eu garanto que o que está ocorrendo é uma falta de consciência das pessoas que assim agem.

A legislação é muito clara sobre a responsabilidade de quem gera qualquer tipo de resíduo. A Lei que estabelece a Política Nacional de Resíduos Sólidos determina em seu artigo 28 que ¨ O gerador de resíduos sólidos domiciliares tem cessada sua responsabilidade pelos resíduos com a disponibilização adequada para a coleta ou, nos casos abrangidos pelo art. 33, com a devolução. ¨ Em síntese somos responsáveis pelo resíduos que geramos até seu encaminhamento para o destino final, que pode ser por reuso, reciclagem ou disposição em local adequado.

A figura a seguir nos dá uma ideia, de outra forma de descumprimento da Política Nacional de Resíduos Sólidos. Esta embalagem foi encontrada a poucos metros da margem do Arroio

O Artigo. 33 do Plano Nacional de Resíduos Sólidos estabelece que ¨  são obrigados a estruturar e implementar sistemas de logística reversa, mediante retorno dos produtos após o uso pelo consumidor, de forma independente do serviço público de limpeza urbana e de manejo dos resíduos sólidos, os fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes de:  agrotóxicos, seus resíduos e embalagens, assim como outros produtos cuja embalagem, após o uso, constitua resíduo perigoso, observadas as regras de gerenciamento de resíduos perigosos previstas em lei ou regulamento, em normas estabelecidas pelos órgãos do Sisnama, do Sistema Nacional de Vigilância Sanoitária e do Suasa, ou em normas técnicas.¨

Será que a pessoa que sugeriu a utilização do veneno que está embalagem continha, ou aquela que o vendeu não deram estas informações contidas na Lei ao consumidor? Quem será o culpado? Quem será responsabilizado?

Aqui mais um exemplo de poluição das águas. As bolhas que aparecem nesta vala são resultados de detergentes lançados, nos sistemas de drenagem de águas pluviais urbanas. Estes sistemas são projetados para receber o escoamento superficial das águas de chuva que caem nas áreas urbanas, mas acabam sendo receptores de águas usadas, também chamadas de cinzas, que são lançadas pela população urbana. Estou falando de águas das pias, dos chuveiros, das máquinas de lavar roupa.

Não acredito em mudança de comportamento apenas pela punição. Como professor sou daqueles que acreditam que só uma boa educação pode mudar os hábitos, os costumes e as atitudes, de pessoas que apesar de, dependerem do ambiente em que vivem, esquecem de retribuir com carinho e atenção tudo o que tem recebido da Terra, nossa grande Mãe.

Podem estar perguntando porque denominei este texto como a ¨Dor do Arroio Castelhano. ¨ Não sei bem porque, mas fazendo está caminhada por suas margens, senti muita dor. Não uma dor física, mas algo que veio de dentro, como se eu estivesse também sendo judiado, agredido, maltratado. Senti seu esforço em continuar sua trajetória, apesar dos obstáculos colocados pelo homem, do assoreamento de suas margens, do lixo jogado em suas águas, das tentativas de retificar seu leito, dos descaso com que o tratam.

Ainda não descobri porque o denominaram de Castelhano, mas minha origem uruguaia talvez seja o motivo de minha aproximação. Não tive a oportunidade de nadar em suas águas, mas já bebi de sua água pura das nascentes e, talvez esta ação esteja me dando forças para continuar lutando pela sua preservação.

 (*) Bacharel em Economia pela Universidade de Cruz Alta, RS; Bacharel em Administração Pública e de Empresas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul; Mestrado em Administração pela Universidade de Syracuse, New York, USA; Mestrado em Auditoria e Gestão Ambiental pela Universidad de Leon, Madrid, Espanha; Professor Universitário; Presidente do Instituto Gaúcho de Sustentabilidade, Consultor Organizacional. Ambientalista

Venâncio Aires, 11/08/2017

 

 

 

 

 

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